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Hino do Fracassado

Vitor está no Paraíso. Uma música celestial preenche seus ouvidos. Seria impróprio abrir os olhos. Uma multidão lhe ergue e as emoções se confundem. Não há espaço para pensar. Não há espaço para falar. Não há esperança de acordar. Uma voz sem rosto sorrateiramente funde-se ao ressoar das cordas. Chegou o momento. As portas se abrem, o vagão se preenche sem nem esvaziar. São sete horas, não há como esperar o próximo trem. Vitor funde-se à multidão e deixa-se carregar. Só um pensamento invade sua mente: “até quando?” Um pequeno balbuciar, a inaudível imprecação.

“Há problemas maiores”, se convence Vitor. “A rotina não irá me derrubar”, mente para si. “Há vitória no amanhã! Há vitória hoje! Determino!” Mas a vitória não chega. Os dias são longos, o dinheiro curto, a faculdade sonolenta e a família doente. “Devia largar tudo”, pensa. Um sussurrar arde em sua mente: “fiz algo para merecer tanto? Não deveria prosperar? José não venceu no Egito? Daniel na Babilônia? Reis não se dobraram ao insignificante Paulo? Não fui justo como eles? Pequei! Maldita imprecação! Maldito o dia em que duvidei! Maldito… eu…!?”

Histórias como a de Vitor existem na mesma quantidade das mentiras do mundo. Mas, não se engane, só há uma moral nessa história: não fomos educados para o fracasso. Nas igrejas, “nem ouse subir no púlpito pra contar desgraça!”, diz o pastor inquieto. Também não há histórias de fracasso nas escolas e a moral dos contos é simples: o bem vence e o mal perde. O trabalhador come e o vagabundo mendiga (aliás, olha outro aí na janela). A lógica é deliciosamente simples e nos convence. Mas a vida chega e não há sombra do sucesso e intuímos: “há um mal em nós”.

Por isso sou obrigado a contar uma história de fracasso. Na verdade, um hino. Acredite, houve quem cantasse o fracasso na Bíblia. O Salmo 44, no início (v. 2-9), nos engana, ele conta histórias fantásticas que ouviu de seus pais. Milagre, poder, amor divino e eleição de um povo. Há inclusive uma expressão de louvor eterno (v. 8!). Mas então o salmista se desmascara. As coisas não vão bem. Ele se sente rejeitado e envergonhado (v.9), se vê como um soldado covarde que corre de qualquer inimigo (v. 10), uma ovelhinha dócil no meio de açougueiros gananciosos (v. 11-12).

É aqui que, mesmo na leitura da Bíblia, começa a arder a chama da dúvida: “o que ele fez?” Se toda a penitência do Sl 51 foi pelo adultério de Davi, o que o autor do Sl 44 deve ter feito? A verdade é que somos fanáticos por pecado, nosso e dos outros. É automático, ouvimos “pecado” e sem perceber nossos dedos estão apontando. Mas aqui o salmista surpreende. Ele não tem medo nenhum de dizer: “não esqueci Deus e não descumpri a aliança” (v. 18). Não há idolatria em seu currículo (v. 21) e ele acusa: “Deus sabe de tudo isso, ele conhece as coisas escondidas!” (v. 22).

Para o salmista, só tem um culpado: Deus! O hebraico é claro como água no versículo 23: “por sua causa [Deus!] somos mortos todos os dias, somos contados como ovelhas de corte”. É Deus que me transforma na ovelhinha frágil que é dilacerada pelos açougueiros para a venda! Como se não bastasse, o salmista proclama no final (v. 23-26) que Deus está dormindo! Então pede, educadamente, que ele levante-se (v.23) e se erga (v. 26), que saia de seu esconderijo (v. 24).

No Israel Antigo diziam que se você fosse fiel (seja lá o que signifique), você prosperava. E, para isso, tinham provas na sociedade. Cito um exemplo: sacerdotes controlavam o templo, onde se coletavam tributos (Ml 3.10). Coincidentemente, sacerdotes eram ricos. Ou seja: ser fiel, como os sacerdotes, dava certo. Mas o problema é que, como com Vitor, não dava certo pra todo mundo! Então, sem pestanejar os sacerdotes diziam aos que sofriam: vocês estão em pecado! Por isso os discípulos de Jesus perguntam sobre o cego se ele tinha pecado. É a chamada “Teologia da Retribuição”, que vemos em muitos outros textos do AT (p. ex.: Lv 26).

Mas é nesse contexto que o Salmo 44 torna-se bonito. Ele nos ensina um caminho diferente do da retribuição, ensina uma lição, não como aquelas dos contos. É uma lição de fracasso. Ensina que nem sempre o sofrimento, a dor, a doença, o cansaço, a desesperança, o medo, o frio, a fome, a frustração e a vergonha vem como pagamento por nossas ações. Na vida sofremos. Mas, graças ao Bom Deus podemos cantar, mesmo que seja em forma de lamento. Não cantamos porque venceremos, mas porque temos alguém que pode escutar. E a nós resta, nesse meio tempo, não mudar de caminho (v. 18), mas seguir na luta por um mundo justo, onde reine o amor real, não o amor de plástico (v. 20).

Deus nos ajude!

 

Silas Klein.
Presbítero na IEC de Vila Vera e Professor do IBK, área de Bíblia.

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